Notas sobre o conflito entre a norma culta e a vida real

“Você sabe que eu te amo” é uma frase que deve estar sendo dita neste exato momento, em algum lugar deste imenso país. Uma declaração de amor, linda, pura, tão desejada – e errada! Errada, segundo a gramática tradicional, por ser uma construção que peca ao misturar duas formas de tratamento, “você” e “tu”, forçando um encontro que, em princípio, seria uma união impossível.

Quase ninguém, no Brasil, dirá “você sabe que eu o (ou a) amo”, que seria a forma prescrita pela gramática para essa declaração. Quem tentar contornar o problema dizendo “você sabe que eu lhe amo” continuará em desacordo com as normas vigentes, já que o verbo “amar” é transitivo direto. Para a maioria dos brasileiros, como indicam estudos do Projeto Atlas Linguístico do Brasil, que priorizam o uso do “você”, em detrimento do “tu”, é um beco sem saída — só que ninguém repara nisso. Ou quase ninguém, porque nós aqui vamos discutir o caso.

Embora o “você” tenha substituído amplamente o “tu” em boa parte do Brasil, o pronome “te” permaneceu vivo na língua falada. O resultado é um sistema híbrido, em que formas de tratamento historicamente distintas passaram a conviver na mesma frase — o “você” faz o papel de sujeito, mas o “te” continua ali, remanescente de um “tu” que já não se diz mais em voz alta. É justamente esse hibridismo que explica por que construções como “Você sabe que eu te amo” soam perfeitamente naturais no uso predominante por aqui, apesar de entrarem em conflito com a gramática normativa.


NA TERRA DO TU

Uma pergunta pertinente seria: em Portugal também é assim? A resposta é um enfático não — e o motivo revela que o hibridismo brasileiro não é universal ao português, mas uma particularidade nossa. O uso desses dois pronomes de tratamento lá é tão diferente daquele usual aqui que chega a ser o inverso: enquanto no Brasil o “você” é mais popular, em Portugal é o “tu” que predomina. O “você” no português europeu é muito menos frequente no dia a dia, podendo soar frio ou distante em certos contextos — e, em outros, até rude. Na pátria-mãe da língua, a mistura “tu” e “você” na mesma frase é bem menos tolerada e soa mais como erro do que como registro coloquial.

Essa diferença entre as duas variantes nos leva a um dilema: se nos deparamos com a necessidade de traduzir uma frase como “You know I love you”, como proceder? Respeitar a regra e produzir algo que soaria estranho (“você sabe que eu o/a amo” ou então “tu sabes que eu te amo”) ou criar algo “natural”, ainda que tecnicamente incorreto?


O DILEMA DO TRADUTOR

Para responder é necessário voltar-se à teoria da tradução. Qual é o objetivo dessa atividade humana? Uma possível resposta, segundo a Teoria da Equivalência Dinâmica, formulada pelo linguista americano Eugene Nida (1914-2011), é que a tradução deve buscar produzir no leitor da língua de chegada um efeito equivalente ao experimentado pelo leitor do texto original. Se esse é o propósito, preservar a intenção, o tom e a emoção da mensagem pode ser mais importante do que reproduzir literalmente a estrutura gramatical do texto de partida.

Na prática, porém, tudo dependerá do contexto da tradução e do público a que ela se destina. Personagens de época ou de ambientes formais podem justificar uma linguagem mais “escorreita” e gramatical, enquanto diálogos cotidianos exigem que o tradutor seja um traidor da gramática para ser fiel à vida real (e à intenção do autor). Por essa razão, “você sabe que eu te amo”, o erro mais romântico da língua portuguesa, está certo mesmo estando errado.

A propaganda, aliás, já resolveu esse impasse há tempos, deixando de lado os escrúpulos gramaticais: “Vem pra Caixa você também!”, e ninguém estranha, porque a frase soa como fala, não como regra.

Na tradução, muitas vezes o problema não está na língua de partida, e sim na língua de chegada. O bom tradutor sabe reconhecer quando a estrita observância da norma culta compromete a oralidade do diálogo. E ele é um dos poucos profissionais (como os ficcionistas e os publicitários) que têm a licença literária para “errar” a gramática em nome da naturalidade.

Isso, porém, muda completamente na tradução juramentada, em textos jurídicos, acadêmicos, técnicos ou administrativos, nos quais a norma culta tem prioridade. Mas aqui estamos falando de amor.


Se você estivesse traduzindo um romance para leitores brasileiros, escreveria “Você sabe que eu te amo” ou “Você sabe que eu o (ou a) amo”?

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